quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A Coruja


Invoco nesse instante
A força da poesia,
Para narrar uma história,
Duvidosa, eu diria,
Que tudo em quanto na vida
Uma história se cria.

Quando eu era pequeno

Tive a satisfação,
De ouvir meu pai contar,
As lendas deste sertão,
E ficava mais alegre
Quando vinha o tio Romão.

Tio Romão é poeta
Também meu familiar,
Sujeito aposentado
Que gosta de passear,
Sempre vem ao Lisieux
Com histórias pra contar.

Mora lá em Rio Verde
Na região de Goiás,
Caboclo muito engraçado
Conversador é demais,
Mais as suas anedotas,
São de cair para traz.

Juntos, ele e o meu pai,
Era disputa acirrada
Cada qual contava uma
Sempre mais bem afiada,
Mais papai se superou
Contou uma bem danada.

Meu pai é Raimundo Altino,
Ou Raimundo Areal,
Mas, Raimundo José Rodrigues
É seu nome batismal
Chame como preferir,
O que lhe achar mais formal.

É a história de uma Coruja
Que na Serra do Pajé.
Habitou – se lá no alto,
Não sei se foi de má fé,
Assombrando tudo e todos,
Homem, menino e mulher.

Encontrou uma furna grande
E fez dela moradia,
O povo dentro de casa
Não entrava e nem saia,
Vou descrever como era
A sua fisionomia.

Essa Coruja era grande
Tinha dois metros de altura,
O bico dava dois palmos,
Dez centímetros de grossura,
E as asas, duas navalhas,
Bem afiadas e duras.

Tinha a plumagem cinzenta,
Como as cinzas de um fogão,
Os olhos eram vermelhos,
Como a larva de um vulcão,
E as suas garras eram
Maior de que uma mão.

Vamos seguir mais pra frente,
Pois dei a explicação,
Como era a Coruja,
Que causava assombração,
Vou citar tudo o que ela
Fazia a população.

Perdeu – se logo sossego
Ao redor daquela Serra,
Os moradores aflitos,
Enfrentavam uma guerra
Com os desfecheis da coruja
Assombrando aquela terra.

Ela acabou com tudo
Que os moradores tinha
Peru, pato, galo, capote,
Pinto, frango e galinha,
Pegava quando queria,
No terreiro da cozinha.

Animais de porte médio
Foi se acabando aos pouquinhos,
Cabra, bode, carneiro,
Ovelhas com cordeirinhos,
Porcos dentro de chiqueiros,
E porcas com bacorinhos.

Quando atacava o gado
Fazia o seu melhor,
Planejava bem a tática,
Pois a caça era maior,
Depois de pego levava,
Retalhado bem menor.

Era muito prejuízo
Que aquele monstro causava,
Devido tanto estrago
Ninguém mais nada criava
Sabiam que era inútil,
De nada adiantava.

O curioso é que ela
Era um pouco diferente,
Saia durante a noite,
E de dia no sol quente,
Sua sombra se estendia
Da Serra para Vertente.

Quando chegava a noite
Silenciava o sertão,
O povo dentro de casa
Prestava bem atenção
Para escutar o seu canto,
De tristeza e solidão.

Isso ás 12 em ponto
E o povo ansioso,
Esperava o momento
Desse canto tenebroso,
Que ao mesmo tempo tinha
Um sonoro lagrimoso.

Esse som se estendia
Por toda amplidão
Que até lugares distantes,
De certa povoação,
Por mais longe que se fossem
Ouviam com perfeição.

Diziam estar chorando
Devido viver sozinha
Porque tinha perdido,
O parceiro que ela tinha,
Mataram seu companheiro
E deixaram-na doidinha.

Eu me lembro muito bem
Em quanto meu pai contava
A história, e meu tio,
De pressa logo chamava
Minha irmã pra imitar
Como a Coruja cantava.

Tio Romão assim dizia,
-Rosiana venha cá,
Sendo ela a caçula,
Ele mandava imitar,
E em troca da imitação
Tinha um presente pra dar,

Más, voltando ao assunto,
Vamos ser mais curioso
Que o destino da Coruja
Vai ficar desanimoso,
Ela agora vai pagar
Do jeito mais desgostoso.

Num certo dia um rapaz
Decidiu criar coragem,
E numa noite sem lua
Entrou na mata selvagem,
Só com uma cartucheira
E dez cartuchos de vantagem.

O nome desse rapaz
Eu não sei lhe informar
Era um sujeito cigano
Que gostava de andar,
E que soube dessa fera
Então veio confirmar.

Subiu a Serra sozinho
Sem nenhum pingo de medo,
Não falava com ninguém,
Talvez por algum segredo,
Ou então é porque ele
Não gostava de enredo.

Chegando lá no topo
Escondeu – se atrás de uma gruta
Viu de perto a furna grande,
E dentro a fera bruta,
Esperou a hora certa
Pra enfrentar a labuta.

Aos poucos se aproximou
Com a passada exata,
Surpreendeu a Coruja,
Dando – lhe uma gravata,
E os cartuchos da sua arma
Tinha as balas de prata.

A Fera o jogou
Dentro de um grutilhão,
Mas ele muito astuto,
Caiu de arma na mão,
Atirou muito ligeiro
Acertando o coração.

E disse assim – Sua Coruja
Você de mim não esqueça
Isso serve para todos,
Para que não me aborreça,
E os nove cartuchos restantes
Ele atirou na cabeça.

A cabeça da coruja
Já não tinha uma beira,
Ele foi ao povoado,
E de forma bem faceira
Disse – A besta fera está morta
Pode ser que alguém queira.

Pegou o seu patuá
E na estrada seguiu.
Num momento de descuido
Da vista ele sumiu,
E o canto da coruja
Ninguém nunca mais ouviu.

Ela desapareceu
Mataram aquela fera
Mas na furna onde morava,
Tem dois ovos de esfera,
Dizem que com cem anos
Vão vingar – se da espera.

Respeite essa história,
Orgulhosamente fiz,
Se você não conta uma,
Então por que se mal diz?
Na rima é que eu me sinto,
O sujeito mais feliz!

Autor: Roseno Oliveira
 
Dt. 26/12/2008